Numa grande operação iniciada ontem pela Polícia Federal, uma extensa quadrilha envolvendo médicos e revendedores clandestinos de Botox está sendo desmanchada em vários estados brasileiros. O número de médicos envolvidos em Minas Gerais é grande, inclusive em Belo Horizonte. A Vigilência Sanitária está, ao mesmo tempo, vistoriando Clínicas e consultórios em busca de produto falsificado ou de origem clandestina. Segundo o delegado Humberto Freire de Barros, coordenador da operação que envolveu 80 policiais no País, enquanto a unidade do Botox autorizado pela Anvisa pode custar até R$ 1 mil, o irregular era comercializado por menos da metade do preço – em torno de R$ 400.
Leio isso com os mesmos olhos que assisti a uma cena semana passada. Estive na região hospitalar para levar o Bezão, meu caçula, ao pediatra. Na volta, fiquei parada no trânsito aguardando uma mulher à minha frente enquanto ela estacionava seu carro em um local proibido, na esquina, fechando a rampa que dava acesso aos cadeirantes ao passeio e dificultando enormemente a conversão à direita pelos carros. Exatamente debaixo da placa proibido estacionar. Numa área que muitos andam de cadeira de rodas e ambulâncias precisam de velocidade para as vidas que transportam. Saindo do carro, ligou o alarme e quando virou-se para andar, deu de cara com dois guardas, que vinham conversando. Assustada, ela perguntou:
- Ai, seu guarda! O senhor vai me multar se eu parar aqui, né?
Levando a mão no peito, o policial, de patente ainda soldado, respondeu assim:
- Eu não, por mim você pode ficar. Não sou responsável por essa área.
Alegrinha, a mulher falou:
- Ah… que bom! É porque eu estou com muita pressa, então, vou deixar aqui mesmo.
E linda, leve e solta, arranjou a bolsa no ombro e saiu caminhando apressadamente para resolver sua vida. Os guardas retomaram o papo, continuando a caminhada. E o carro ficou ali, debaixo da placa proibido estacionar.
E nós, que vivemos num país de DIREITOS, ficamos assim, à mercê dos direitos dos outros. A pessoa tem o direito de parar num local proibido. Tem o direito de ter uma pressa maior do que a sua. Tem o direito de impedir um doente acessar a calçada de cadeira de rodas. Tem o direito de atrapalhar a conversão à direita de todos os carros e ambulâncias que passarem por ali, por maior que seja a urgência de uma parada cardíaca ou de uma hemorragia incontrolável que precisa de uma cirurgia imediata.
Os policiais têm o direito de não exercerem a sua autoridade. Têm o direito de não ter trabalho de forçar a pessoa a tirar o carro. Têm o direito de decidir quem deve cumprir a lei. Ou se ninguém deve cumprir. É um direito.
Nossos direitos ultrapassam nossas obrigações. Nos fazem mais importantes. Nossa necessidade é mais importante do que a do outro. Uma pessoa tem direito de vender Botox roubado, Botox falsificado, Botox adulterado, Botox xarope, Botox água. Não importa na testa de quem vai parar aquilo. Se numa testa de ferro, se na sua, na de alguém que confiou. Não sendo na dele, prevalece o direito. Não importa se mataram o motorista que levava a carga. Não importa a quem estamos prejudicando. Se é na vaga proibida da rua ou no Botox ilegal.
O médico tem o direito de comprar de quem ele quiser. Não importa a origem, se é seguro, contaminado ou xarope. Ou roubado. Se vai causar anticorpos em quem recebeu, se vai transmitir alguma doença ou se simplesmente não vai fazer efeito. Ele tem direito de concorrer de forma totalmente desleal com o colega médico que compra certinho. E paga o preço correto. Não importa se você não quer exercer a autoridade decente que esperam de você. Seja você médico ou policial, honrar sua ocupação ou não é um direito pessoal.
E vamos caminhando assim, em um país de direitos, adormecidos em relação às nossas obrigações. Não existe obrigação. Existe direito. Direitos.
Espero que a Polícia Federal apreenda mesmo, puna os envolvidos e que você desconfie de Botox muito barato. O preço de custo para o dermatologista é muito alto. E somente o próprio fabricante é que vende. Fazemos pedido diretamente para ele – não há intermediários. Existe um só fornecedor. Mesmo que o médico resolva pedir uma enorme quantidade de uma só vez, o desconto é pequeno. Então, não há como um colega médico oferecer esse tratamento a preço baixo. Principalmente os que têm menos clientes, que compram menores quantidades. Não pague 3 bananas por um relógio Rolex. Não vai ser um Rolex.
Bom feriado!















